onde o tempo ficou

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onde o tempo ficou *

série: A Minha Casa É Em Todo Lugar
Essas fotografias não falam de onde eu estive.
Elas falam de como eu estive.

Paisagem com montanhas verdes ao pôr do sol, com céu parcialmente nublado e luz dourada refletindo nas encostas.

Durante dois anos, eu vivi em muitas casas.
Algumas por poucos dias. Outras por tempo suficiente para entender o ritmo, o silêncio, o jeito de acordar.

Fotografar esses lugares nunca foi sobre registrar o espaço.
Foi sobre reconhecer o instante.
O momento exato em que um lugar deixa de ser cenário e passa a ser presença.

Silhueta de uma mulher em pé na água do mar com reflexos brilhantes ao sol.
Pessoa de pé descalça, com uma saia azul escura, segurando um guarda-chuva vermelho com desenho branco, dentro de uma casa com piso de madeira.

Cada imagem que nasce aqui carrega mais do que luz, composição ou técnica.
Ela guarda o tempo em que foi feita.
A temperatura do dia.
O estado emocional de quem chegou e de quem recebeu.

Há imagens feitas em casas cheias.
Outras em lugares quase vazios.
Algumas nasceram no silêncio, outras no meio da vida acontecendo.
Todas têm algo em comum: foram feitas quando eu estava inteira naquele momento.

Árvore sem folhas com vários pássaros empoleirados nos galhos.
Rapaz de costas, descalço, com bermuda de banho, observando o mar na orla com pedras, numa cidade litorânea

Este projeto não é um acervo de viagens.
É um arquivo de estados.
Estados de pausa, de travessia, de começo, de pertencimento.

Quando uma fotografia sai daqui para entrar em outra casa, ela não muda de função.
Ela continua sendo o que sempre foi: um lugar para estar.
Um ponto de respiro.
Um fragmento de tempo que segue existindo.

Pessoa com roupas coloridas segurando uma manta com padrões e palavras, na rua, de costas.
Praia com areia marrom, uma grande pedra na areia e o mar ao fundo com ondas suaves, céu claro, sem pessoas.

Porque algumas imagens não servem apenas para serem vistas.
Servem para serem habitadas.

Para acompanhar o tempo, sem pressa de significar.
Para lembrar, todos os dias, que viver bem também é saber escolher o que fica.

Imagem em preto e branco de um edifício de estrutura de vidro, visto de baixo para cima, com o sol refletido nas janelas.

A Minha Casa É Em Todo Lugar.

Uma série criada ao longo de 24/25, atravessando países, cidades e culturas.
Mais do que lugares, registrei relações, rotinas e silêncios.
Cada casa foi um convite para viver a vida do outro por alguns dias.
E cada imagem carrega a memória desse encontro.

Pessoa de perna preta, com calça e sandálias, de lado, caminhando sobre rochas perto do mar, com um fundo de céu nublado em preto e branco.